AS BIG TECHS E O CINEMA PÓS COVID-19
- Lena Capel
- 25 de abr. de 2024
- 7 min de leitura
A pandemia do Covid-19 trouxe o crescimento da plataforma de vídeos rápidos TikTok, criada na China em 2016. Com o isolamento, o acesso constante à internet motivado pelo trabalho remoto e aulas ead fez com que o entretenimento constante e globalizado em dosagens rápidas e humoradas viralizasse com facilidade. Muitos depoimentos, trends e formatos se assemelham aos longos vídeos do YouTube, mas contam com um facilitador que a plataforma de vídeos longos considera seu maior impasse: o tempo.
Com a rapidez com que as notícias se espalham em um mundo globalizado, com lojas e produtos internacionais e séries em streamings globais com episódios cada vez menores para podermos consumir mais, a dinâmica de postagem nas redes sociais gera esse fluxo rápido que os outros meios ainda não conseguem bater, seja por não terem conteúdos dinâmicos de 30 em 30 segundos, músicas engraçadas contagiantes ou a facilidade de abrir o celular e receber uma enxurrada de informações ditadas pelo seu algoritmo. Um estudo aponta que 6 entre 10 pessoas que afirmaram que nunca usariam a plataforma, agora são usuários frequentes.

Cerca de 66% das contas consomem conteúdo para entretenimento e dentro dessa porcentagem temos 34% das pessoas buscam conteúdos voltados para Cinema e TV, 36% para Notícias e 30% para Esportes, o que coloca em cheque a indústria do audiovisual. Com base nesses dados podemos traçar um estudo de caso que corrobora para a premissa de que com as mudanças tecnológicas, somadas à pandemia de Covid-19, houve um aceleramento na migração do consumidor de produtos audiovisuais para o ambiente online. O cinema, que agora ocupa um ambiente do qual fazem parte também as big techs, o Tik Tok e as plataformas de games, terá de encontrar novas formas para encontrar seu público.
No mundo automobilístico, as corridas de Fórmula 1 sofreram um grande desinteresse mundial. A morte do piloto Ayrton Senna, a aposentadoria do heptacampeão Schumacher, para os brasileiros a aposentadoria dos pilotos Massa e Barrichello nos anos de 2017 e 2011 que não conseguiram um título durante suas temporadas e a compra dos direitos de transmissão da Liberty Media pela emissora internacional SkySports - entre outros - contribuíram para o cenário de decadência. O ano de 2015 ficou marcado como o início do descaso televiso pela categoria, e no Brasil as complicações ficaram nítidas quando a Globo tentou transformar o esporte em um 'evento esportivo' ao colocar uma bancada de comentaristas no estúdio da Fátima Bernardes, e ao longo do programa o espectador era bombardeado com uma alternância entre o estúdio e a corrida.

Com descaso, aos poucos o que importava para os fãs foi sendo cortado, até que apenas a corrida fosse transmitida pelos canais Globo. Porém, em 2018, a plataforma de streaming Prime Video lança o que vem a ser o início da retomada da F1 ao cenário mundial. ‘Grand Prix Driver’ é uma minissérie narrada por Michael Douglas que oferece acesso ao funcionamento interno da equipe McLaren, levando o espectador ao mundo secreto da Fórmula 1. A minissérie acompanha a equipe inglesa na construção do carro para o teste em Barcelona e o lançamento mundial; E o preparo e relacionamento dos pilotos Fernando Alonso e Stoffel Vandoorne. O ápice do drama são as dificuldades internas da reestruturação da equipe e a entrada do motor Honda. O acesso irrestrito às instalações da equipe, os dramas orçamentários, a rotina midiática dos pilotos, a desorganização da McLaren e os conflitos de agenda se assemelham com a construção narrativa do atual fenômeno ‘Drive to Survive’. Embora a minissérie da Amazon seja muito menos dramática, com uma edição bem menos tendenciosa e menos núcleos de personagens, o esquema de datas e locações funcionam de forma parecida. No primeiro episódio de DTS vemos uma reunião na equipe americana Haas que se assemelha com uma reunião durante um ponto crítico dentro da McLaren.
A visão intimista, confidencial e de certa forma, um pedido de desculpa aos fãs pelos erros cometidos, é uma premissa forte, mas seguir apenas uma equipe, e uma que não está no topo, não foi o bastante. Ian Holmes, diretor de mídia da F1, disse que “Grand Prix Driver da Amazon Prime instigou a ideia de criar Drive to Survive em uma época em que assistir F1 significava quase exclusivamente assistir corridas ao vivo pela televisão. A nova proprietária do campeonato, Liberty Media, achou que poderia haver mais sucesso em uma produção de seu próprio design. Em vez de fornecer “uma licença de braço”, como Bernie Ecclestone preferia, que administrava filmagens limitadas e direitos de filmagem para shows com foco em indivíduos pilotos ou equipes.” A Netflix, em uma plataforma com mais investimento e alcance, conseguiu expandir o universo. ‘Drive to Survive’ reergueu um esporte que vinha se mantendo com a nostalgia dos espectadores mais velhos e aqueles influenciados por uma geração anterior.

Culminando com a tendência de cauda longa dos produtos e as redes sociais, a Netflix e a F1 acharam a fórmula perfeita: Um ‘reality show’ que mostra os pilotos mais antigos do grid (para a felicidade dos fãs de longa data) e os novatos (para alegria das equipes que conseguem criar laços com os novos fãs para apelo midiático) que impulsionou o esporte pela polêmica e pelos comentários via web. Com o boom da série, uma cauda longa da F1 foi gerada: além dos meios tradicionais (TV, jornal, livros e produtos oficiais) foram somados o streaming, os jogos (mobile e videogame), as plataformas nas redes sociais, as atrações cada vez maiores nos paddocks com shows de artistas e performances de esquadrões da força aérea, álbuns de figurinha, podcasts, produtos oficiais vendidos pelos próprios pilotos e o desenvolvimento oficial da categoria de e-Sports utilizando o jogo oficial de Fórmula 1, o 'FIA Formula One Esports Series'. Para a equipe que começou o processo, temos a base de seu marketing voltado para as redes sociais desde então.
Quando 'Grand Prix Driver' foi gravado, Zack Brown (chefe executivo da McLaren) estava lidando com uma reformulação no conselho da equipe. Com seu posto para captar o máximo de patrocínios possíveis, sempre foi conhecido como um mestre na captação de parceiros mesmo em momentos de crise. Gravado em um momento nítido em que a equipe está com dificuldades financeiras e estruturais, além de uma dupla de pilotos que claramente não é próxima, Brown está com a árdua tarefa de convencer velhos investidores a não saírem e novos a entrarem. O projeto foi uma estratégia de marketing para a equipe: traz visibilidade para a equipe, carisma para os membros, curiosidade para ver o desempenho ao longo da temporada e retorno financeiro. Embora tenha envelhecido mal para a equipe (que não foi bem nem em 2017 nem depois disso), a minissérie foi precursora de um grande movimento esportivo da F1. E a McLaren tem um carisma que poucos tem: além de uma equipe com um piloto jovem com grande apelo midiático e outro com carisma natural, criaram seu próprio ‘reality’.
O ‘McLaren Unboxed’ é um versão própria do que a equipe passa, quer mostrar, e disponibiliza em sua plataforma (YouTube), onde lucra de forma direta (sem passar primeiro pela Netflix e esperar os repasses e contratos). Embora envolto em muita polêmica, 'Drive To Survive' criou uma febre pelo esporte através do Twitter e do TikTok, alavancando as redes sociais dos pilotos e equipes. Todos geram conteúdos diários para todos os meios, assim como a própria organização FIA. A categoria voltou a repercutir no cenário mundial e a lotar autódromos, assim como no Brasil os direitos adquiridos pela emissora Bandeirantes estão valorizados e cobiçados pela antiga detentora, a Globo.
Chegando finalmente ao cinema, essa valorização digital (redes sociais e jogos) e televisiva (transmissão e séries), teve o impacto transcrito nos longa-metragens recentes do gênero e na próxima aposta da Apple TV+: um lançado em 2019, 'Ford v Ferrari', e outro em 2021, 'Schumacher'. Anterior à pandemia e ao boom digital do esporte sofrido inquestionavelmente durante o isolamento (uma vez que mais pessoas passaram a assistir às corridas e cruzar com vídeos da categoria na For You do TikTok), o filme protagonizado por Christian Bale e Matt Damon foi ganhador do BAFTA e Oscar de Melhor Edição, Oscar de Melhor Edição de Som, e dois Sattelite pela atuação de Bale e pela direção de Mangold. Desde o lançamento do filme Rush (2013), o cinema não recebia um filme de automobilismo que fosse bem recebido pelo público e por ser uma representação cara dentro da indústria, uma vez que envolve patentes, circuitos e planejamento cautelosos com gastos devido os carros e encenações. Geralmente são filmes de grande orçamento que não vemos com frequência, e quando são lançados, chegam de maneira tradicional.

Esse é o caso de Ford v Ferrari. No caso do longa-metragem documental 'Schumacher', lançado exclusivamente na plataforma Netflix no ano de 2021, a divulgação tomou outro rumo. Primeiro, devido a pandemia mas também por estratégia de lançamento, o projeto foi disponibilizado apenas no streaming e em alguns países, como no grande polo de fãs do automobilismo - o Brasil, por tempo limitado. O documentário foi amplamente divulgado nas redes sociais da antiga equipe do piloto, a Ferrari, além das redes sociais do filho Mick Schumacher que também é piloto, pela equipe Haas. A campanha se estendeu para as redes oficiais da FIA e da Netflix, além de outros pilotos e antigos companheiros do heptacampeão. Como o TikTok em 2021 se manteve como fonte principal de comunicação e entretenimento ao lado do Twitter, trechos, cenas e falas do longa foram aparecendo conforme os fãs consumiam o projeto. Desde os trailers, printscreens foram sendo divulgados pelos espectadores emocionados por terem novo conteúdo desde o acidente pouco comentado sofrido por Schumacher.
Outro ponto importante que a Netflix utilizou em suas campanhas online: afinal, eles abordaram o pós-acidente ou não? Esta expectativa gerou 71% de aprovação da audiência no Rotten Tomatoes. Associar as redes sociais com o cinema, as big techs e as plataformas de games pode ser um desafio que algumas empresas ou nomes consolidados do mercado já têm desenvolvido. Como exemplo final do mundo automobilístico temos a associação de marcas, jogos, tecnologia e cinema com o heptacampeão Lewis Hamilton. No ano de 2017, o simulador de corrida 'Gran Turismo 7' disponibilizou uma parceria com o piloto dentro do jogo onde o usuário pode frequentar uma 'escola de pilotagem' com dicas e testes desenvolvidos pela parceria Polyphony Digital, Playstation e o piloto.
Chegando finalmente na grande aposta da Apple Tv+, o piloto firmou uma parceria como consultor para Brad Pitt em seu novo filme onde será um chefe de equipe e piloto aposentado. A parceria repercutiu a partir das fotos e vídeos que foram divulgadas aquecendo a recepção do filme, que ainda não tem data nem sinopse reveladas. Atrelando sucessos, há o interesse em adotar as mesmas técnicas de filmagem que foram utilizadas no filme 'Top Gun: Maverick' (2022), onde um complicado esquema de câmeras foi montado para que os atores pudessem apertar o rec dentro dos caças em pleno voo. E dias depois dessas revelações, Hamilton anunciou a criação da sua própria produtora com foco em filmes que tenham impacto social.

A Dawn Apollo Films é gerida pelo piloto com mais seguidores da categoria na plataforma Instagram e Twitter, além de ser amplamente conhecido no mundo da moda por suas parcerias com grifes de luxo e a sustentabilidade. Combinar a popularidade da internet, ela sendo nociva ou não, para impulsionar seu filme é a tendência do momento.
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